Quando acordei na sala de recuperação, ainda não tinha idéia do que tinha acontecido. A resposta veio pela voz do dr. Aleixo, já na enfermaria: "o senhor está com um saquinho, provisório". Descobri, assim, que estava ostomizado. As fezes agora saiam por outro orifício.
Recebi com naturalidade uma enfermeira que veio me explicar aonde conseguir as bolsas, como funciona, assepssia etc.
Sim, tenho dois casos, assim, aguento melhor as coisas ruins da vida. E, pior, se encher os sacos, abro o principal e não vai ser apenas um odor desagradável simples, vai ser uma porrada. Pode pedir uma máscara contra gases.
Já faz (ou fazem?) dois anos e alguns meses, que venho combatendo o câncer. Aparentemente estou ótimo. Mas já estou no terceiro protocolo, fazendo, agora, uma quimioterapia oral, o que quer dizer nada de internamento.
Sou uma pessoa calma por natureza, e vejo tudo com otimismo, sempre tirando alguma coisa positiva de qualquer revés. Mas, não aguento ficar internado junto a colegas que estão morrendo. Vi 5 mortos, um deles, acompanhei a sua expiração até o ultimo momento, e, depois vê-lo sendo "empacotado", bem ao meu lado. Não tem nervos que aguente. Entro em depressão só em pensar em ficar novamente internado.
Quanto ao resto, encaro com bom humor. Quando chegava na sala de QT (segundo protocolo), para uma sessão de 4 horas de quimio, chegava citando uma frase de uma canção:"voces pensaram que fui embora, ói eu aqui outra vez!". Aí levantava o astral de todo mundo. Incentivava, dava conselhos. Lamento que um dos meus colegas, em estado profundo de depressão, sucumbiu. Tentei tanto levantar o seu humor, incentivando a fazer alguma coisa na vida.
Mas ter o saquinho (sim, importado), provocou momentos engraçados. O pior são os gases. A bolsa vai inchando, inchando, você na rua. Aonde esvaziar o ar? é um ataque de gases quase mortíferos. Me lembro que estava na sessão do cinema, quando percebi o saco enchendo de ar, não dava tempo para ir ao sanitário, esvaziei ali mesmo. Ato contínuo, surgiu uma clareira ao meu redor. Todo mundo se mandou de perto de mim. E eu com uma cara inocente: "Não fui eu!"...
Em plena sessão na sala de QT, no Hospital Oswaldo Cruz, a bolsa estourou. O odor tomou conta da sala. O pior é que eu iria me infectar todo. E as enfermeiras e auxiliares entraram em pânico. Eu as acalmei e orientei como agir. Surgiu um saco de lixo e esparadrapos. Isolei eu mesmo a área. Resolveu. As enfermeiras e auxiliares aprenderam mais uma lição, coitadas...
Tenho que andar com uma bolsa sobressalente para esses casos. E tenho que levar papel higiênico ou toalhas de papel, por que é complicado fazer a troca em local público.
Infelizmente, os sanitários são estão preparados para os ostomizados. São mais de 2000 em Recife, só os cadastrados na Associação, que fica no Barão de Lucena. A maioria gente modesta. Não sei quantos são os de classe média, mas deve ser outro tanto. Estes, devem ter uma maneira mais saudável de resolver os problemas.
Não tenho vergonha de dizer que estou com câncer nem que sou ostomizado.
Poderia ser bem pior. Aids, por exemplo.
Infelizmente, já observei que tanto o hospital como os médicos, não estão por dentro das últimas novidades em tratamentos e medicações. Como a pesquisa que está sendo na UFPE ou UFRPE, a partir do pau brasil, com resultados positivos em 90%, isso em cobaias. Eu quero ser uma cobaia, para ser totalmente curado. Mas a minha médica não sabe o que é isso, e, mesmo assim não incentiva.
Sei de outros tratamentos, mas ela não comenta comigo. Se eu ouso citar, ela diz que não é o meu caso. E ai tenho que pesquisar por contra própria.
Ela não sabe (e não vou dizer) que estou tomando medicações alternativas (dois tipos). Participei de uma reunião de portadores de cancer, de classe média, onde assisti a três depoimentos, inclusive um deles de uma médica, dizendo que se curou com tratamento alternativo, embora o seu médico reprovasse. Depois, segundo ela, o médico teve admitir que ela, sem ele saber o por que, estava curada.
Enquanto isso, continuo tentanto frequentar o Centro Espírita André Luiz, na PE-15, mantido pela viúva de Edson Queiroz.