quarta-feira, maio 16, 2007

AS DIFERENÇAS

Por Stela Cavalcanti

Sou pernambucana e moro no Rio de Janeiro há oito anos. Sou praticamente uma pernambuoca, vocês diriam. Mas, mesmo com este tempo todo aqui, não me acostumei completamente às diferenças entre as duas cidades da minha vida.

Por exemplo: na hora de pegar um ônibus, você faz que nem naquela lanchonete e pede pelo número. Como assim, Bial? Simples: aqui não se diz "Pegue o Dois Irmãos-Rui Barbosa e desça na praça do Parnamirim" e sim "Pegue o 409 e desça na Lapa". O 409, na ida, é Jardim Botânico e na volta é Praça Saens Peña. Melhor chamar pelo número a lutar com a pronúncia. É "sãs penha", "saens penha" ou "sãs pena"? Pergunte a um carioca e sempre receberá uma pronúncia nova.

Eu moro na Tijuca, zona norte, que é longe prá dedéu da Barra da Tijuca, que é zona oeste. Tem uma floresta no meio separando as duas, embora quase todomundo que eu conheço em Recife ache que eu moro na Miami carioca. Moro não, meu povo. A Tijuca é, assim, uma Casa Amarela com metrô. E quem vive aqui não é carioca, não. É, antes de tudo, Tijucano. Como se você morasse ali no Rosarinho e não fosse recifense, fosse rosarense. E eu sei que essa palavra não existe, acabei de inventar.

Aqui ninguém fala "a gente vai" como "a rente vai". Dá saudade do nosso sotaque e eu já prendi o riso com alguns cariocas quase caricatos. Outro dia fiquei ouvindo uma conversa na banca de revista: dois homens combinavam um churrasco depois do jogo. "Eaê, tás sabeno que eu deixei minha mulé?" "É?" "É, mas daqui trêxxx mêxxx volto prela".

Não sei o que mais deu vontade de rir, se foi o jeito canastrão do cara (quase um coroa), seu sotaque ou seus planos de farrear por três meses e achar que a mulher o aceitaria de volta numa boa.

Essa história só serve para confirmar que caba safado existe no Brasil todo e talvez até em marte. Mas uma coisa que não existe no Rio de Janeiro é fiteiro. Não existe a palavra e não existe a coisa em si. Não há fiteiros nas esquinas, pequenas lojinhas de metal vendendo bombom e cigarro no retalho. Há bancas de revista. Não sendo banca de revista, apontador do bicho, moleque pedindo esmola, camelô ou cocô de cachorro, não tem não senhor.

Também não tem os palhacinhos do Detran. Tem meninos fazendo malabarismo com bola de tênis e gente vendendo água e coca cola nos sinais, nas horas do engarrafamento.

Aqui tem uma beleza que chega a afrontar. Você tá cuidando da sua vida, andando na rua e tebêi com o Cristo Redentor, lá do alto, te olhando. No começo me dava um certo abuso: mas a gente anda que só a moléstia nesta terra e tá lá o Cristo fuxicando nossa vida. Com o tempo, acostumei e só falto dar tchauzinho. Você anda na praia e tem mar azul da cor de jeans, gelado a vida toda, montanha, asa delta voando, escultura de areia, se bobear até tem transatlântico ou artista da globo passeando no calçadão.

Não perdi meu sotaque de todo e nem estou falando "Bom Dia" como "Bom djia". Meu marido nasceu aqui e adora pernambuco (Todo pernambucano é gente boa, frase dele). Quando a gente se conheceu, ele pedia para eu falar "Tip" e achava bonitinho (ele pronuncia como "Txip" de onde surgiu esta quarta letra na palavra é um mistério total para mim.) Mais um tempinho e teremos uma pernambuoca casada com um cariocano. É esperar para ver, peixe.

segunda-feira, maio 14, 2007

Gestor público, em Pernambuco, não dá bola para a nossa história...

DESCASO COM A NOSSA HISTÓRIA!

O Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, dirigido pelo professor emérito Nilzardo Carneiro Leão, é um exemplo inominável do descaso com a nossa memória: está ameaçado de corte de energia elétrica e telefone, por falta de pagamento. O Instituto NÃO RECEBE nenhuma verba oficial, seja do estado federal, estadual ou municipal. Tanto dinheiro é jogado fora com eventos que não interessam a Pernambuco, mas quando à nossa memória...

O Instituto tem mais de 160 anos e, no seu acervo, muitos documentos pertinentes à história de Pernambuco, muitos deles, há anos sem ser pesquisados e identificados.

Como cidadão e colaborador do Instituto Arqueológico, e, atualmente, diretor de uma ong que trabalha com o resgate da nossa memória, o mínimo que posso fazer é botar a boca no trombone, por não concordar com essa desfeita à nossa memória.

Como produtor cultural há 30 anos, sou testemunha desse descaso permanente, que entra governo e sai governo e nada muda. Nenhum gestor cultural se preocupa com a nossa história. Posso citar, rápidamente, o descaso com os livros raros e históricos da Biblioteca Pública, que estão apodrecendo nos seus porões, e não vou citar nem o que acontece com o Arquivo Público.

Hoje o museu do Instituto está fechado, pois não tem dinheiro para pagar a recepcionista/monitor. Tudo está sendo preservado com recursos dos próprios associados.

Infelizmente, nenhum gestor público (leia-se governador e prefeito, independente de partido ou ideologia), dá à mínima para a nossa história.

Como também trabalho com comunicação, fico assustado quando vejo imensas possibilidades de se trabalhar a imagem de Pernambuco Brasil afora:
Foi aqui que nasceu o patriotismo, o sentimento de pátria; foi aqui que nasceu o exército brasileiro; foi aqui que proclamada, pela primeira vez, a independência ()e república) do Brasil, antes de D. Pedro I (esse algoz de Pernambuco...); foi aqui que tivemos a primeira constituição da república; foi aqui que tivemos a primeira imprensa livre do país. E tantos outros primórdios da nossa história, o que poderia , sendo devidamente trabalhado, para contribuir para o aumento da auto-estima do pernambucano comum. Nada é feito.

Uma verba insignificante, para os padrões estatais atuais, de 3 mil reais, mensais, resolveria o principal problema do Instituto Arqueológico, abrindo de novos as portas para a comunidade. O que custa isso para V. Excelencia? O resultado seria fantástico!

Apelo, como cidadão pernambucana, para a pernambucanidade de Vossa Excelência, no sentido de ajudar a preservar a nossa memória. Responda este email e colocarei Vossa Excelência em contato com os dirigentes do Instituto, pois estou escrevendo de moto própria, indignado com esse descaso. Pernambuco poderia um dos maiores estados da federação!

quarta-feira, maio 02, 2007

É ISSO AÍ

Quando descobri que podia falar, não parei mais.
Alguns amigos, sutilmente, dizem que falo muito.
Mas, também sei ouvir, especialmente quando o amigo está com problemas.
Um amigo de infância de longa, no segundo casamento, abriu o verbo:
A sua primeira esposa não afinava com ele. No início o sexo era arretado de bom. Eita namoro gosto. Me lembro da paixão dele. Conheci a mulher dele. Depois do casamento, arrefeceu, ficou gorda. E o sexo, diminuiu.
Segundo ele, chegava momentos que ela reclamava: "só pensa nisso". Pois é. Quando namoravam, tudo era possível, em qualquer lugar, frequentadores assíduos de moteis. Depois de casado, se sugerisse motel, ela desconversava: "é melhor em casa, é mais barato". Chegaram a ter um filho.
Ele tinha uma secretária muita esperta, além de bonita e gostosa: mudou de emprego. Saiu do posto de amante e virou esposa.
Mas, tudo se repetiu! E pior, ela mudou de emprego, para um melhor, e, ele, fechou a firma com o trambique do sócio.
Virou dependente da esposa.
Tem pior coisa do que isso, mesmo o cara não sendo machista?
Pedir dinheiro para o cigarro, a cachaça, para o ônibus, a gasolina.
E, o curioso, ela, a nova esposa, nunca se lembrou dos velhos momentos em que bancava tudo, até mesmo no começo do casamento, quando então veio a falência da empresa, e ficou sem empresa, e, tragédia: quem iria empregar um "velho de 40 anos"?
Ele chorou muito me contando isso. Gosta muito dela. Mas não aguenta mais tanta humilhação.
Ih... O casamento vai pro beleléu...