Quem sou eu, Quem será tu, rabo de Tatu?!
Transcrevo email que passei para o jornalista e cronista social do Jornal do Commércio, num momento em que eu estava cansado de tudo:
Caro Alex:
A gente se conhece, se desconhece, reconhece, se esquece...
No transcorrer do tempo, você já divulgou trabalhos meus, sem nunca nos conhecercemos, apesar de termos amigos comuns, acredito.
Por exemplo, José Francisco Filho. Ambos comemoramos 40 anos de vida cultural, só que ele é conhecido e reconhecido, eu sou o desconhecido.
Não gostei dos holofotes. Sempre fiquei nos bastidores, levado por um modéstia exacerbada e uma timidez contumaz.
Foi ruim isso pra mim, vejo.
Mas não tenho o talento das lantejoulas, dos gestos rebuscados, do andar calculado.
Não nasci para o estrelato, e sim para fazer o modesto papel de formiguinha, anônima, nessa densa floresta cultural.
Com certeza foi issso que me levou a montar o Instituto Memorial Pernambuco de Arte e Cultura, com o objetivo principal de pesquisar, resgatar, divulgar a nossa memória. Trazer do esquecimento os nossos artistas pulverizados pelo tempo e pelo descaso dos nossos gestores culturais.
Foi numa conversa com o meu grande amigo, de 30 anos, Claudionor Germano, do qual sou assessor e consultor informal, que chegamos a uma conclusão óbvia: se não vão lembrar de Abelardo da Hora, daqui a alguns anos, quanto mais de Claudionor Germano (e eu, onde fico nisso?).
A conversa tomou este rumo por causa do descaso com Capiba. Que não é nome de nenhum logradouro do Recife ou de outras cidades.
Sequer tem uma escultura à altura da sua envergadura moral, artística e cultural, como Abelardo sabe fazer.
Estou dizendo tudo isso, revendo os meus recortes de jornais. Só de música são 37 páginas. Ainda não contabilizei as páginas de recortes de Literatura e Teatro, onde atuei freneticamente até 2000. Pois é. Tive até matéria de página inteira, meia página.
Hoje, os príncipes do jornalismo, são incomunicáveis. Não adianta a sua presença na recepção, lá embaixo, que o jovem jornalista salvador da pátria diz: !mande um email!". Você manda e vai pro lixo.
Te conto, a título de ilustração, duas histórias pertinentes, caro Alex (do qual sou um admirador anônimo, pela sua postura ética e moral nesses anos todos de jornalismo):
1 - Quando fui divulgar o lançamento do portal Memorial Pernanbuco, cujo lançamento seria na Livraria Cultura, mandei material, VIA EMAIL, para toda a imprensa. Nada saiu. Mas, conversando com uma velha amiga jornalista, Jô, assessora de imprensa de um órgão estatal, comentei o fato. Ato contínuo ela perguntou alguns nomes para quem enviei o material. Ela citou um, eufórica: "mas esta menina foi minha aluna na Universidade". E liga para a tal jornalista, que lhe informa que realmente recebeu um material de um tal de Don Antonio, mas como achou que ele era maluco, colocou no lixo. Jô explicou que o tal Don Antonio não era maluco, que é minha amiga e que tenho uma extensa folha de serviços prestados à nossa cultura".Dito feito ela disse que ia fazer uma "materiazinha", que realmente saiu no dia seguinte, com 5 linhas.
2. Mota é um velho amigo jornalista, quando fomos colegas do primeiro jornal de humor do Recife, a XEPA, editado pelo cineasta Fernando Monteiro. Eu escrevia contos de humor, Mota, artigos. Mota se aposentou, voltou a escrever livros. E, um deles, fez sucesso na Europa, muitas críticas boas no Velho Mundo. Então, ele achou que seria interessante uma matéria aqui em Recife. Ligou para o velho jornal onde trabalhou mais de 20 anos. "Mota o que?". "Ó véio, manda tudo via email". Mota tentou argumentar que o fato de um escritor pernambucano ser comentado na Velha Europa, daria uma boa matéria. Ai o jornalistazinho arrasou: "E ai vé, qual o gancho?". Pois é. Morreu a matéria...
Mas por que o estou incomodando com este besteirol?
Por que decidi retomar a minha carreira musical iniciada em 1967, interrompida em 1994, para descobrir, espantado, que não existe mais espaço para os desconhecidos na imprensa pernambucana, não importa o currículo. Nada daquela gostosa convivência entre os birôs das redações do Diário e do Comércio, que a gente invadia, batia papo, trocava idéias, sem ninguem se macular. Fazíamos amizades eternas, sem problemas. Acabou tudo isso. "Mande um email".
Pois é, Alex.
Se puder, humildemente, colocar na sua coluna esta nota, o que posso fazer? Só modestamente agradecer.
Don Antonio, artista e militante cultural, retoma a sua carreira musical. Quarta-Feira, 25 de abril, 21 horas, se apresenta com uma banda formada pelos melhores músicos do Recife, num show engajado e engraçado. Detalhes em: www.show.memorialpernambuco.com.br.
Obrigado

