Sábado, casa de José Francisco Filho, ou Zé Francisco, ou Zé. Não é um Zé qualquer. O pequeno apartamento aconchegou velhos amigos que agora se intitulam "Das Antigas".
É o último aniversário de Zé antes de virar sexagenário (igual que nem eu). Presentes a fina flor do teatro pernambucano: Valdir Coutinho, Marcelo Peixoto, Carlos Bartolomeu, Rubem Rocha Filho, Ivonete Melo, George Meirelles, Gaspar de Andrade, Tiago Bitu (o filho de Gaspar que usa outros pseudônimos), Paula de Renor, Gildete e Inaldo (do elenco da Duquesa dos Cajus) e outros amigos, parentes e aderentes.
Minha esposa, Fátima, normalmente não gosta de visitar os meus amigos que ela não conhece, mas nessa noite, fazia questão de recusar qualquer convite para ir embora logo.
A reunião foi divertidíssima com depoimentos impagáveis do pessoal Das Antigas com os debates inevitáveis. Uma noite inesquecível.
Foi Zé que me iniciou com o teatro em 1973 pelo finado Tucap. E, ali, naquele momento, três velhos companheiros do Tucap estavam presentes: Eu, Zé e Gaspar.
Histórias de teatro eram contadas, para delírio da pequena platéia, cujos participantes, por serem de teatro, faziam interpretações hilárias daquelas histórias, como o momento em que Alfredo de Oliveira, irmão de Valdemar de Oliveira, em cena, levou uma bandeja para Diná, esposa de Valdemar, se servir. E a pobre não conseguiu tirar a xícara que estava colada...
Naquele momento, estavam presentes os donos da memória da cena teatral pernambucana, pena que não houvesse máquina fotográfica, gravador ou uma câmara de vídeo.
Gildete, por exemplo, tentava apresentar justificações sobre uma possível perda de virgindade, alegando que ultimamente circulava muito ao lado de gays, o que provocou um irado gesto negativo do seu companheiro no aniversário. Risos gerais. Ou quando Inaldo disse que sonhava em fazer um teatro de revista ao som de New York, New York, descendo uma hipotética escadaria no Teatro Valdemar de Oliveira. Foi a desculpa para todos dizerem que ele ficaria bem de vedete, cheia de plumas. Para quê? Ele confessou que nas horas vagas fazia a personagem Love Blue, uma drag queen terrível! Não pude deixar de comentar que ficaria muita bem uma drag queen Love Blue toda de cor-de-rosa!
Gaspar ainda tentou apresentar uma tese, diz ele surgida na sua casa de praia não sei aonde, sobre um grande espetáculo que Zé queria encenar. Algo a ver com as teses de Pier Paolo Pasolini. Tanto o roteiro como a musica, são impublicáveis. Mas achei a idéia interessante, embora hiper escatalógica.
E por falar em escatalogia, Carlos Bartolomeu confessou que fora procurado por um desses grupos de teatro que fazem esses espetáculos pornofonicos caça-níquis. Um convite: digirir a nova encenação. Declinou elegantemente, sugerindo que como a tendencia atual do teatro pernambucano é fazer teatro escatalógico, que tal encenar uma peça de Marquês de Sade, inclusive com cenas de sexo explícito? A sugestão não foi aceita, confessa Bartolomeu, embora esse pessoal já esteja Sadeando...
Houve um grande debate sobre o teatro pernambucano atual, chegando-se quase a uma conclusão de que os diretores atuais não estão se adaptando à realidade. E que esse teatro escatológico poderia ser muito mais salutar se não recorresse a pornofonias. Ou seja, o público que gosta do bom teatro, está se afastando. Enquanto uma garotada vai ao delírio com as pornofonias!
Inaldo lembra um espetáculo montado por Carlos Varella, O Encontro da Cobra Choca com o Sertanejo Valente, que divertia sem apelar.
Nesse momento, Zé está ensaiando a peça infantil A DUQUESA DOS CAJUS, de Benjamim Santos (clique para ver mais detalhes).
Tem uma coisa que aprendi com Zé: o horror de fazer teatro infantil como se fizesse teatro para imbecis, como normalmente alguns diretores despreparados (preocupados mais com o dinheiro) estão fazendo. Sempre uma preocupação de fazer um teatro sério, antenado com a didática etc e tal. Fiz isso no finado Colégio GEO, onde passei 5 anos coordenando o Grupo de Teatro Geo, que criei, produzi e dirigi.
Me lembro, que Valevski(hoje um dos donos do NEO), na época sócio de Eduardo Belo no GEO, não era muito favorável a teatro dentro da escola, pois tinha aquela imagem que de um teatro feito por adolescente é algo inconseqüente e cheio de besteiras.
Eu sabia disso. Por isso, escrevi uma sátira à História do Brasil, BRASIL À VISTA, exigindo um teatro de verdade, o Teatro Barreto Junior. A maioria dos professores não escondia suas opiniões quanto à capacidade do Grupo de Teatro GEO de fazer algo que prestasse, a não ser aquelas porcarias de teatro de estudantes... E deu no que deu, todo mundo indo elogiar o grupo depois do espetáculo, inclusive o próprio Valevksi dizendo que estava enganado sobre a gente.
Me lembro algo parecido, quando Zé montou , com o Tucap, PROMETEU ACORRENTADO, de Ésquilo, na Igreja Rosário dos Pretos. Depois do espetáculo, an passant, testemunhei uma dondoca confessar para outra:"até que estes estudantes fazem um teatro direitinho...".
Eu não tenho o preparo intelectual e nem a experiência de Zé, mas estou sempre preocupado em fazer teatro, se bem gosto mais de teatro de comédias.
Arrisquei, naquela reunião, a um comentário: A maioria dos grupos pernambucanos assusta o provável público com encenações cansativas, chatas e herméticas. Eu acho que o caminho seria montar algo parecido com um Teatro Pernambucano de Comédias (como o TBC fez no sul), encenando espetáculos que formem platéias.
Para finalizar, um comentário sobre o nosso ex-amigo e ex-colega Cristiano Lins, que insiste em nos considerar seus amigos. Ele mandou novamente um material de denuncia a varios produtores culturais, e, aproveitou o email para mais uma vez me espinafrar. Ele gosta disso. Mas não tem nenhuma pessoa sã em Recife que aceite fazer um trabalho sem o cash antecipado. Eu fazia trabalhos de programação visual para as peças dele, mas não posso provar que ele ficou me devendo. Apenas nunca entregarei minha cadela para ele levar pra passear. Não é uma pessoa confiável. Agora, em vez de ficar batendo nos seus ex-amigos e ex-colegas, devia cuidar da vida dele. É um fim de carreira lamentável para quem foi tão importante como produtor em Recife.
1 Comentários:
Realmente, Zé Francisco não é um Zé qualquer. Quem o conhece sabe muito bem disso. Em relação aos diretores do teatro pernambucano, existem dois ramificações claramente identificáveis: Os que falam e não fazem e os que fazem e pronto!
talvez, se muitos dos diretores ou pessoas que se dizem do ramo, pararem de falar e começarem a agir, o nosso teatro voltará a colher os frutos de outrora.
Parabéns pelo blog...
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