CINEMA NACIANAL
Estou escrevendo o roteiro de um curta sobre os últimos momentos de Frei Caneca. O vereador Liberato Costa Junior, intransigente defensor das nossas tradições fêz um apelo: Nada de Calvário de Frei Caneca. Tranquilizei-o. Nunca faria isso, pois sou incompetente e incapaz de fazer qualquer coisa trágica por natureza. Gosto de comédia e de ação. Não seria um cineasta de prêmios, pois nem posso pensar nisso. Uma pequena overdose de falta de amor próprio.
Na verdade, o buraco é mais embaixo. A minha vaidade está em outro local: gosto de fazer e isso me fascina. Sou um operário executivo. Gosto de receber uma missão, um desafio, encarar. "Considere feito!".
Me preocupo em contar um história e que ela tenha final feliz. Frei Caneca tinha alto-astral. Como disse Liberato, "enquanto um foi pra forca rindo, o outro foi chorando". Quem? O maior herói da história pátria não é feriado nacional, quanto mais local. Amarelo Manga incomoda, causa enjôo e comove. E afasta o público.
Por causa desse fazer cinema, sonho antigo de criança, me vi na obrigação de começar a assistir os filmes nacionais locais. O primeiro, Amarelo Manga, premiadíssimo.
Aluguei a fita. É gostoso a gente ver a nossa cara no cinema, quer dizer, o nosso povo, o cenário, reconhecer as ruas, tentar adivinhar que prédio é esse, perceber que as cenas de rua não são gravadas com lógica etc.
Hoje, no ensaio da peça "A Duquesa dos Cajus", houve um breve debate sobre algumas incongruências que achei na história; parte do elenco concordou, outra parte achou estava correto, num democrático empate técnico.
Sou espectador desde os... 7, 8 anos. Se tenho 59 anos, são 50 anos de cinema. E olha que sou fanático, chegando a alugar 5, 6 fitas para ver num final de semana normal. Como não sou um intelectual, mas um espectador mediano, já disse que gosto de filmes de comédia, ação, policial. Já assiste Fellini (todos), Antonioni, Pasolini etc., mas, exceto Fellini, não gostei muitos dos outros.
Fui testemunha do cinema novo, que gostei, das pornochancadas que não achava graça e até das divertidas chanchadas. Mas sempre vi que o cineasta brasileiro parece que sofre de dor de cotovelo: vai contar uma história, mas faz cenas intermináveis, tomadas desnecessárias, irritantes. Hoje isso acontece em muitos documentários.
Anos atrás assiste ao cineasta-camelô, acho que o nome é Cristovão. Fez vários filmes em vídeo, com equipamento precário, a ajuda de amigos etc. Cheguei a assistir um filme com um amigo meu, já falecido, Moraes, fan de cinema também. Era uma história de faroeste, com um roteiro linear, simples. A câmera uma VHS domésticas, filmada no automático, com todos os problemas decorrentes.
Mas o Cristovão, com toda a pobreza, sabia fazer uma coisa, e o meu amigo Moraes concordou: dominava a linguagem cinematográfica. Sabia contar uma história.
Amarelo Manga tenta contar uma história caótica, mas, como é filha da televisão, tem várias histórias paralelas. Qual a principal? Vão me meter o pau mas vou dizer: Aquela cena do close da xoxota (ei! sou do time!) totalmente desnecessária, igual à cena da morte do boi no matadouro. Chocante. Soube que num debate que houve que o cineasta queria chocar. Bem, se ele queria chocar, que tal cenas à la carte Folha de Pernambuco em vídeo? Uma cena de dissecação de cadáver é chocante!
Se o cinema quer conquistar público, não é porai, com essas idiciossincrasias. Como o fato da personagem de Jonas Bloch possuir um conservador automóvel Mercedes Benz, morar numa pensão decadente e ainda gostar de dar tiro em cadáver. Eu teria explorado essa tara da personagem por detonar cadáveres. Seria hilário. Mas morreu a idéia ali mesmo.
Mas filme tem que verissemelhança, aquilo que torna plausível o impossível. Quer dizer que no necrotério ninguém iria notar que tem presunto furado de bala? Parece uma necrofilia, se bem que tava para balafilia...
A história poderia ter se desenvolvido no núclero Mateus & Dira, e se daria bem, mas o roteiro se perdeu no meio da história. Uma ótima oportunidade perdida. Bom para o diretor que conquistou muitos prêmios, péssimo para o público que se sentiu agredido com aquelas cenas. Público perdido, não volta mais.
Mas o diretor não está sozinho. A outra produção que assiste recentemente, Caminho de Sonhos, superprodução brasileira, contando uma história de uma família que atravessa o país de bicicletas, é outra incoerência. O filme termina no meio da estória! Ou seja, não é uma questão de dinheiro. É criatividade.
Quero saber qual é público que aguenta um mês de tragédias, finais infelizes, longos enquadramentos e cenas chocantes. Eu queria saber.
O curioso é que todas essas pessoas que comungam desses princípios, não tem muita força econômica, política ou cultural, pois há 40 anos que tentam nos impingir esse formato de cinema sem sucesso. O público contribue com o que gosta mais de fazer: a ausência. Quem está certo?A minoria ou a maioria?
Acho que o pessoal não aprendeu a lição do Baile Perfumado, que completa 10 anos de produção: saber contar uma história, sem clichês e inovando. Simples.


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