segunda-feira, outubro 30, 2006

CINEMA NACIANAL

Estou escrevendo o roteiro de um curta sobre os últimos momentos de Frei Caneca. O vereador Liberato Costa Junior, intransigente defensor das nossas tradições fêz um apelo: Nada de Calvário de Frei Caneca. Tranquilizei-o. Nunca faria isso, pois sou incompetente e incapaz de fazer qualquer coisa trágica por natureza. Gosto de comédia e de ação. Não seria um cineasta de prêmios, pois nem posso pensar nisso. Uma pequena overdose de falta de amor próprio.

Na verdade, o buraco é mais embaixo. A minha vaidade está em outro local: gosto de fazer e isso me fascina. Sou um operário executivo. Gosto de receber uma missão, um desafio, encarar. "Considere feito!".

Me preocupo em contar um história e que ela tenha final feliz. Frei Caneca tinha alto-astral. Como disse Liberato, "enquanto um foi pra forca rindo, o outro foi chorando". Quem? O maior herói da história pátria não é feriado nacional, quanto mais local. Amarelo Manga incomoda, causa enjôo e comove. E afasta o público.

Por causa desse fazer cinema, sonho antigo de criança, me vi na obrigação de começar a assistir os filmes nacionais locais. O primeiro, Amarelo Manga, premiadíssimo.

Aluguei a fita. É gostoso a gente ver a nossa cara no cinema, quer dizer, o nosso povo, o cenário, reconhecer as ruas, tentar adivinhar que prédio é esse, perceber que as cenas de rua não são gravadas com lógica etc.

Hoje, no ensaio da peça "A Duquesa dos Cajus", houve um breve debate sobre algumas incongruências que achei na história; parte do elenco concordou, outra parte achou estava correto, num democrático empate técnico.

Sou espectador desde os... 7, 8 anos. Se tenho 59 anos, são 50 anos de cinema. E olha que sou fanático, chegando a alugar 5, 6 fitas para ver num final de semana normal. Como não sou um intelectual, mas um espectador mediano, já disse que gosto de filmes de comédia, ação, policial. Já assiste Fellini (todos), Antonioni, Pasolini etc., mas, exceto Fellini, não gostei muitos dos outros.

Fui testemunha do cinema novo, que gostei, das pornochancadas que não achava graça e até das divertidas chanchadas. Mas sempre vi que o cineasta brasileiro parece que sofre de dor de cotovelo: vai contar uma história, mas faz cenas intermináveis, tomadas desnecessárias, irritantes. Hoje isso acontece em muitos documentários.

Anos atrás assiste ao cineasta-camelô, acho que o nome é Cristovão. Fez vários filmes em vídeo, com equipamento precário, a ajuda de amigos etc. Cheguei a assistir um filme com um amigo meu, já falecido, Moraes, fan de cinema também. Era uma história de faroeste, com um roteiro linear, simples. A câmera uma VHS domésticas, filmada no automático, com todos os problemas decorrentes.

Mas o Cristovão, com toda a pobreza, sabia fazer uma coisa, e o meu amigo Moraes concordou: dominava a linguagem cinematográfica. Sabia contar uma história.

Amarelo Manga tenta contar uma história caótica, mas, como é filha da televisão, tem várias histórias paralelas. Qual a principal? Vão me meter o pau mas vou dizer: Aquela cena do close da xoxota (ei! sou do time!) totalmente desnecessária, igual à cena da morte do boi no matadouro. Chocante. Soube que num debate que houve que o cineasta queria chocar. Bem, se ele queria chocar, que tal cenas à la carte Folha de Pernambuco em vídeo? Uma cena de dissecação de cadáver é chocante!

Se o cinema quer conquistar público, não é porai, com essas idiciossincrasias. Como o fato da personagem de Jonas Bloch possuir um conservador automóvel Mercedes Benz, morar numa pensão decadente e ainda gostar de dar tiro em cadáver. Eu teria explorado essa tara da personagem por detonar cadáveres. Seria hilário. Mas morreu a idéia ali mesmo.

Mas filme tem que verissemelhança, aquilo que torna plausível o impossível. Quer dizer que no necrotério ninguém iria notar que tem presunto furado de bala? Parece uma necrofilia, se bem que tava para balafilia...

A história poderia ter se desenvolvido no núclero Mateus & Dira, e se daria bem, mas o roteiro se perdeu no meio da história. Uma ótima oportunidade perdida. Bom para o diretor que conquistou muitos prêmios, péssimo para o público que se sentiu agredido com aquelas cenas. Público perdido, não volta mais.

Mas o diretor não está sozinho. A outra produção que assiste recentemente, Caminho de Sonhos, superprodução brasileira, contando uma história de uma família que atravessa o país de bicicletas, é outra incoerência. O filme termina no meio da estória! Ou seja, não é uma questão de dinheiro. É criatividade.

Quero saber qual é público que aguenta um mês de tragédias, finais infelizes, longos enquadramentos e cenas chocantes. Eu queria saber.

O curioso é que todas essas pessoas que comungam desses princípios, não tem muita força econômica, política ou cultural, pois há 40 anos que tentam nos impingir esse formato de cinema sem sucesso. O público contribue com o que gosta mais de fazer: a ausência. Quem está certo?A minoria ou a maioria?

Acho que o pessoal não aprendeu a lição do Baile Perfumado, que completa 10 anos de produção: saber contar uma história, sem clichês e inovando. Simples.

sexta-feira, outubro 20, 2006

MÁQUINA DO TEMPO

Esta é uma versão atual da Máquina do Tempo, recauchutada por Jules Verne. A pessoa é colocada no cesto e lançada no tempo/espaço; realmente quando a gente viaja parece uma porrada no esqueleto, mas funciona.

Foi assim que começou: Acho que não dou para político, pois não tenho talento nem carisma para agradar a Gregos e Troianos.

Minhas crônicas estão incomodando muita gente, pela quantidade de emails desaforados que tenho recebido, mas como sou discípulo de Diogo Mainardi, sei que a maioria são de pessoas infectadas pelo vírus da SICA (Síndrome do Carangueijo Adquirida).

Sou desprovido de certas vaidades, e, como artista não sou muito de aparecer na mídia. Quando escrevi e produzi a peça (montada em 1981 em plena abertura política) ESQUERDA, DIREITA, VOLTER, que passou dois meses no Teatro do Derby, tinha dificuldade para dar entrevistas. Pedia para José Lopes, o Diretor, falar em meu lugar.

Criei o Instituto Memorial, mas declinei de ser o Presidente, passando a bola para o meu grande amigo Ricardo Magalhães, e o outro cargo da Diretoria para o outro grande amigo Claudionor Germano. Fiquei com o terceiro lugar.

Quando eu estava no Tucap, gostava de trabalhar nos bastidores. Lá fui assistente de direção, sonoplastia, compositor, diretor musical e cenógrafo. Grande experiência. Cheguei a fazer preparação para ator, mas decididamente o palco não é minha praia.

Sempre que sou convidado, e até quando não sou convidado, participo de reuniões, debates, encontros, exercício que muita gente já desistiu de fazer. Num desses, encontrei uma galera nova em teatro, sangue novo. Isso é bom.

Em certo momento, percebi que as discussões sobre os problemas do teatro local, se reportavam à antigas discussões. Cheguei a comentar sobre isso, mas fui mal interpretado. Ai entendo os meus colegas que não gostam mais de reuniões sobre teatro. É a mesma coisa, a mesma ladainha entra ano, sai décadas.

Como se eu tivesse saido de uma máquina do tempo, precisamente do auditório do DCE na metade da década de 70, época que foram criados a Apatedepe (hoje SATED) e a Feteape. Os mesmos conflitos e reclames. Nada mudou.

Lamentavelmente, muitos dos que reclamavam estão ou já estiveram em cargos públicos na Fundarpe ou na Fundação de Cultura do Recife, mas parece que esquecem de tudo.

Como disse da outra vez, um ex-colega e ex-amigo (dessa vez não é Cristiano Lins) veio comentar comigo sobre tudo isso, ele que já foi dirigente.

Eu tenho vergonha na cara. Calado, recuperei o Teatro de Paulista, quando fui assessor do amigo Claudionor, então secretário de cultura de Paulista. Não fiz algazarra.

Como aprendi a fazer projetos a custo zero, levei a experiência para Paulista, fazendo alguns eventos, sem recursos. Como a gente sabe, Prefeitura do interior não entende muito de fazer cultura.

A máquina do tempo ainda existe...

quinta-feira, outubro 19, 2006

QUEM QUER SER PRESIDENTE DA FUNDARPE? EU QUERO!

Eliane Pereira, minha amiga e produtora cultura me informa, com atraso, de uma reunião na Blue Angel, do candidato a governador Eduardo Campos, com artistas, produtores, em suma, com a classe cultural e artística.

Não tomei conhecimento, e, mesmo se soubesse com antecipação, não iria. É um convescote de cada um por si apresentando seus maravilhosos projetos, sonhos, fantasias, salvações da pátria etc e tal. Já vi esse filme. Reprises e reprises.

Não tenho saco para ficar numa reunião dessa, aporrinhando o pobre candidato com "n" pressões, inclusive alguns até postulantes a cargos, projetos, comissões etc. O único cargo que eu gostaria de assumir, digo com todo cinismo e falta de modéstia possível, seria o de Presidente da Fundarpe, mas podem ficar tranquilo, que isso nunca vai acontecer, a não ser que o meu amigo Claudionor Germano seja o Governador... Claro que eu gostaria, quem não gostaria? Viajar, conhecer pessoas interessantes, participar de congressos, feiras internacionais, fazer de conta que entende de cultura, dá uma de intelectual, e, principalmente, carro com motorista. Gosto de dirigir, mas nesse calor... E, principalmente, ter um batalhão de secretárias. Só vou ter que aguentar a porrada de bajuladores que vão se lembrar de mim. Mas, a estes, jogo um bocado de milho.

Fico imaginando a cena, de conhecidos meus, colegas e companheiros de cultura, até mesmo um deles que já disse, aqui nesse blog, que "eu me intitulo da classe artística". Com certeza foi uma festa com boca livre (e saída também, horas depois).

Pessoalmente, acho interessante a eleição de um candidato que quebra o grupo que está há anos no poder, desde os tempos de Agamenon Magalhães, como aconteceu com a eleição de Arraes. Só que, na primeira vez que ele se elegeu, teve apoio das dissidências de então, ou seja, alguns usineiros. E agora?

Não sei quem está com a razão com essa história de precatórios, nessa altura pouco interessando a verdade. A gente sabe que a mentira e a verdade muda de lado de acordo com a posição de quem está com uma delas. Se você fala a verdade e acusa a mentira, amanhã você está do lado de lá, defendendo a mentira que se transforma em verdade, e, agora, a velha verdade é uma mentira. Como ficamos nós?

Seja quem ganhar, o que eu gostaria é que a Fundarpe mudasse e tirasse a atual diretoria, desantenada com a gente. Embora, cá com os meus botões, provavelmente vai tudo continuar na mesma, apenas mudando os nomes, pois, como sabemos, o candidato tem que cumprir os acordos.

Espero que Eduardo Campos, se eleito, não cumpra os acordos, e, ai, me confesso um discípulo de Diogo Mainardi (da revista Veja); As chances de mudança com a continuação de Mendoncinha são muito poucas.

É feito o projeto da Fábrica Tacaruna, que até hoje não entendo por que não saiu até hoje, igual ao projeto da Rádio Frei Caneca, da Prefeitura, que também não entendo.

Quer dizer, entender, a gente entende, mas como explanar isso? Me lembro de um célebre seminário de políticas culturais lá pelos idos de 1985, na primeira candidatura de Jarbas a Prefeito. Deu no que deu. Todos os pontos levantados pela classe cultural, numa reunião inédita com centenas de produtores, artistas, gestores culturais, no auditório da FESP, foram esquecidos, abandonados, surripiados.

Travei uma discussão via jornal com o então escolhido para dirigir a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, aquele nome, onde previ, com meses de antecedência que este não iria durar no cargo. Assisti às cooptações por cargos, projetos, salários. Fiquei tão enojado que me retirei de duas associações culturais na época, abandonando também qualquer idéia de montar espetáculos nos teatros municipais. E, um dia desses, um dos caras que bolou o seminário, teve a petulância de comentar que as decisões daquele seminário não foram cumpridas, justamente ele, que anos depois, assumiu o mesmo lugar! É muito cinismo!

Vocês podem perceber, na foto, que um está agarrando o outro, para ninguém sair.
É uma das características das pessoas infestadas pela SICA.

Aproveito para publicar a foto que me mandaram, no momento exato da captura de vários espécimes de Crabpak, que integram o núcleo da SICA - Síndrome do Carangueijo Adquirida. O pessoal que mandou a foto estão tentando isolar o vírus, pois ainda não existe cura para os kulturnegativo.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Cuidado com a SICA !

Conheci Delaney Saab numa reunião de produtores culturais. Ele é ator, produtor e diretor de espetáculos aqui em Recife. Não sei de que país ele veio. Só sei que surgiu de repente, pimba! Ah! É também professor de cultura, embora também ninguém sabe de que escola ela pertence. Mesmo assim, como muitos outros diretores de eventos dá cursos a torto e a direito.

Por circunstânciais circunstanciais tive que escrever, produzir e dirigir teatro. Esta última função teve um quê de sobrevivência e oportunidade. Oportunidade, porque ela surgiu assim de repente, só que qualquer pessoa com um certo grau de informação, vai saber que vim do país das Águas Verdes com Tobias Barreto, por isso meu nome verdadeiro é Don Antonio das Águas Verdes.

NOTA: A foto acima foi um instântaneo obtido num de suas performances, fazendo bico como drag queen, na porta de um teatro. Não vou dizer quem tirou a foto, por motivos óbvios.

Delaney Saab, à primeira vista, não parece ser uma pessoa de cultura. Tem cara de gerente de banco, vendedor de enciclopédias ou motorista de ônibus escolar, menos artista. Mesmo assim o cara tem talento: alugou uma casa e meteu-se a ministrar cursos culturais, só tá faltando mexer com corte e costura...

Nas horas vagas virou um articulador cultural, meio assim querendo não querendo, mas tem talento sim, o rapaz. Participa de reuniões, encontros, debates, organiza seminários, foruns etc. Tá virando um líder da classe cultural, embora as pessoas continuem se perguntando, de onde ele veio.

Mas, um dia desses, descobri outro talento, que, pra mim, é, apenas, um sintoma da SICA - Síndrome do Caranguejo Adquirida, que, como a gente sabe, ataca 5 em cada 10 artista pernambucano: o rapaz gosta de roubar idéias dos outros, sacanear e ainda ficar com aquela cara de anjo que tem, se desculpando que foi mera coincidência.

O interessante é que eu avisei que ia fazer uma produção inédita, uma idéia original que tive, e mandei um email para ele. Sequer teve a ombridade ou a lembrança de responder, comentando, dizendo que sim, que não, muito pelo contrário. Até que, dias depois, tomo conhecimento de que ele está produzindo um evento cultural e, para minha surpresa, tal e qual nada igual à minha idéia.

Interpelo ele via email e pessoalmente. É tão cínico que diz que foi tudo coincidência, que a produção dele não inviabiliza a minha idéia. Mas, na prática, foi um pá de cal. Como posso realizar meu projeto sem alguém dizer que Delaney Saab teve uma idéia igualzinha?

Pois é. Um amigo meu, também produtor, aliás, um dos mais famosos e importantes, disse que tomasse cuidado com Delaney Saab, justamente pela condição de ninguém saber de onde ele veio, desconfiando-se que ele tem gente importante por trás. E lembrou o caso de outro produtor e diretor, que assumiu uma função importante no poder público, com a condição de deixar alguém no seu lugar, na instituição onde era diretor, para que as manipulaçõeos permanecessem.

Coisas da SICA. Vacine-se. Seja um Pernambucano da Gema, sim senhor.

sábado, outubro 14, 2006

Don Antonio e Vossa Senhoria

Acho que esse nome é interessante, tanto para denominar o meu show de musica, como para se referir à banda, sem aquele horrível e comum "e sua banda".

A banda, no caso, é formada por feras: Wellington Santana (baixo), Breno Lira (guitarra e viola) e Ricardo Fraga (percuteria). Percuteria é uma bateria síntese sem todos aqueles apetrechos. Wellington assina a direção musical, dividindo os arranjos com Breno.

Na terça feira nos encontramos no apê de Breno, na rua da Aurora (com aquela maravilhosa vista do mar e do rio Capibaribe), eu e Wellington.

Talvez eu faça uma estréia exclusiva para convidados: parentes, aderentes, amigos e afins, pois gosto mesmo é de tocar para desconhecido, que dão insuspeitas críticas.

No show, a maioria das músicas são minhas, algumas de amigos e outras conhecidas. Básicamente um show autoral, mas com uma levada pesada, muito balanço e pique.

Essencialmente uma crítica contemporânea, pois quem me conhece sabe que sou incompetente para fazer músicas romanticas, a não ser que um amigo me ofereça uma letra para musicar, como o Alazão de Eurico Bitu, gravado por Marcos Lopes.

Hoje, depois de mais de 15 anos, escrevi uma letra para uma música, com uma temática atual:

MAZOMBO, SIM SENHOR
Don Antonio


Boa noite meus senhores todos
Boa noite, senhoras também
Meus Senhores, minhas senhoras
Os recebo com muito prazer.
Vou logo me apresentar
Sou o Fulano lá do nordeste
Também sei cantar e me danar

Não se engane, meu amigo
Com esse doce apalavrear
Na verdade sou da Pedra Furada
Cabra da peste, sim senhor
Da gema com muito ardor
Do coração com muito amor
De brigar com quem me engana
Pensando em me enrolar
De mandar para o outro mundo
Quem quer ficar com o meu lugar
Assim foi ontem, antes e certa vez

Ficas logo avisado
Que sou é um mazombo arretado
Cansado de ficar calado
Com quem não sabe falar

Já passei por outros mundos
Andei sem parar
Mandei para o outro mundo
Gente de todas as espécies
Cores de todas as genéticas
Seja qual for o seu plantar

Não se finja de amigo
Quem por trás é desamigo
Pois pode enfeitar
Com graça e galhardia
A boca do meu punhal

Já lutei por muitas liberdades
Todas as democracias e orgias
Ao lado dos filhos de índios,
Negros, escravos e portugueses
Como mazombo que sou

Já lutei por todas as idiossincrasias
Distantes, loucas ou coloridas
Como pernambucano, com certeza
Brasileiro, com muito talvez

Digo isso tudo, sem medo de errar
Por todas as vitórias lutadas
Pelos fracassos passados
Pelos colegas todos enganados
Presos, desaparecidos, mortos e torturados

Não pretendo, pois, ser injusto
Como mazombo que sou
Pernambucano com toda a certeza
Brasileiro com muito talvez

Não lutamos tanto pelo norte
Que hoje insistem em chamar de nordeste
Para ver Pernambuco tão ultrapassado
Com tanta bandalheira agreste

Não enfrentamos tanto todas as mortes
Em nome da democracia celeste
Para ver que o que volta para ao norte
É nada que preste para sempre talvez

Não sei por que me ufano do meu país
Mas sei do orgulho da minha raiz

Pernambucanos da gema, atendam ao meu canto
Alimentem o prato do canto com as gotas do meu pranto
Desencantem quem carece despertar
Renascer quem urge bravar
Abram as garras retumbantes e redundantes
Do canto que precisa fremir
O encanto do grande ressurgir
Acordemos o Leão do Norte,
Do Nordeste, do Brasil
Pernambucamos da Gema, sim senhor
Leão do Norte, sim senhora
Viva o Leão do Norte, meus senhores
Viva Pernambuco do Brasil, minhas senhoras

Sim, vamos acusar de um pernambucano radical. Estou sendo subversivo e panfletário. Se fui isso na ditadura militar, e fui perseguido e processado, por que não numa democracia?

segunda-feira, outubro 09, 2006

OS INTOCÁVEIS

Pela ordem, Renato, Don Gomes (il capo di tutti capo), Don Antonio, Rodrigo, respectivamente, genro, pai, eu e sobrinho (filho de Ana Cláudia), momentos do casamento de minha filha Alessandra com Renato.

Problemas, problemas, Renato e Alessandra foram residir em Slatevski, uma pequena vila industrial ao sul de Nordberg, sul da Europa. Renato abandonou a engenharia e agora é Consultor de Vendas, atividade que dá muito mais dinheiro do que simples bacharéis. Todo mundo sabe que os grandes executivos são vendedores, o que dá uma indicação do futuro de Renato.

As nossas comunicações é via interner, MSN para ser exato, e, recados by Orkut.

Perdemos a presença dos banguceiros Renato e Alessandra nas nossas reuniões familiares, mas ganhamos um perturbador, o novo namorado de Oriana, Emmerson, misto de bancário e roqueiro metaleiro, como insinua a tatuagem da clave de fá na batata de perna.

Mônica, a caçula, aderiu á tatuagem, mas, como não é besta, colocou-a num local discreto, para não atrapalhar a futura carreira de promotora ou juiza, para felicidade de meu pai, Dr. Gomes, ex-juiz de direito.

Aproxima-se um feriadão, mas a turma não vai se reunir novamente, por questões financeiras, greve de banco, a grana presa etc e tal. Que oportunidade perdida. Estávamos todos nos preparando para invadir a casa de praia de Don Gomes em João Pessoa, na praia do Bessa (pois, como tudo mundo sabe na Paraíba, todas as pessoas de um certo nível para cima, que mora em Campina Grande, tem que ter uma casa de praia em João Pessoa, razão pela qual bairros como a Praia do Bessa e Poço cresceram muito, invadidos pelos campinenses).

ZÉ NÃO É UM ZÉ QUALQUER

Sábado, casa de José Francisco Filho, ou Francisco, ou . Não é um qualquer. O pequeno apartamento aconchegou velhos amigos que agora se intitulam "Das Antigas".

É o último aniversário de antes de virar sexagenário (igual que nem eu). Presentes a fina flor do teatro pernambucano: Valdir Coutinho, Marcelo Peixoto, Carlos Bartolomeu, Rubem Rocha Filho, Ivonete Melo, George Meirelles, Gaspar de Andrade, Tiago Bitu (o filho de Gaspar que usa outros pseudônimos), Paula de Renor, Gildete e Inaldo (do elenco da Duquesa dos Cajus) e outros amigos, parentes e aderentes.

Minha esposa, Fátima, normalmente não gosta de visitar os meus amigos que ela não conhece, mas nessa noite, fazia questão de recusar qualquer convite para ir embora logo.

A reunião foi divertidíssima com depoimentos impagáveis do pessoal Das Antigas com os debates inevitáveis. Uma noite inesquecível.

Foi que me iniciou com o teatro em 1973 pelo finado Tucap. E, ali, naquele momento, três velhos companheiros do Tucap estavam presentes: Eu, e Gaspar.

Histórias de teatro eram contadas, para delírio da pequena platéia, cujos participantes, por serem de teatro, faziam interpretações hilárias daquelas histórias, como o momento em que Alfredo de Oliveira, irmão de Valdemar de Oliveira, em cena, levou uma bandeja para Diná, esposa de Valdemar, se servir. E a pobre não conseguiu tirar a xícara que estava colada...

Naquele momento, estavam presentes os donos da memória da cena teatral pernambucana, pena que não houvesse máquina fotográfica, gravador ou uma câmara de vídeo.

Gildete, por exemplo, tentava apresentar justificações sobre uma possível perda de virgindade, alegando que ultimamente circulava muito ao lado de gays, o que provocou um irado gesto negativo do seu companheiro no aniversário. Risos gerais. Ou quando Inaldo disse que sonhava em fazer um teatro de revista ao som de New York, New York, descendo uma hipotética escadaria no Teatro Valdemar de Oliveira. Foi a desculpa para todos dizerem que ele ficaria bem de vedete, cheia de plumas. Para quê? Ele confessou que nas horas vagas fazia a personagem Love Blue, uma drag queen terrível! Não pude deixar de comentar que ficaria muita bem uma drag queen Love Blue toda de cor-de-rosa!

Gaspar ainda tentou apresentar uma tese, diz ele surgida na sua casa de praia não sei aonde, sobre um grande espetáculo que queria encenar. Algo a ver com as teses de Pier Paolo Pasolini. Tanto o roteiro como a musica, são impublicáveis. Mas achei a idéia interessante, embora hiper escatalógica.

E por falar em escatalogia, Carlos Bartolomeu confessou que fora procurado por um desses grupos de teatro que fazem esses espetáculos pornofonicos caça-níquis. Um convite: digirir a nova encenação. Declinou elegantemente, sugerindo que como a tendencia atual do teatro pernambucano é fazer teatro escatalógico, que tal encenar uma peça de Marquês de Sade, inclusive com cenas de sexo explícito? A sugestão não foi aceita, confessa Bartolomeu, embora esse pessoal esteja Sadeando...

Houve um grande debate sobre o teatro pernambucano atual, chegando-se quase a uma conclusão de que os diretores atuais não estão se adaptando à realidade. E que esse teatro escatológico poderia ser muito mais salutar se não recorresse a pornofonias. Ou seja, o público que gosta do bom teatro, está se afastando. Enquanto uma garotada vai ao delírio com as pornofonias!

Inaldo lembra um espetáculo montado por Carlos Varella, O Encontro da Cobra Choca com o Sertanejo Valente, que divertia sem apelar.

Nesse momento, está ensaiando a peça infantil A DUQUESA DOS CAJUS, de Benjamim Santos (clique para ver mais detalhes).

Tem uma coisa que aprendi com : o horror de fazer teatro infantil como se fizesse teatro para imbecis, como normalmente alguns diretores despreparados (preocupados mais com o dinheiro) estão fazendo. Sempre uma preocupação de fazer um teatro sério, antenado com a didática etc e tal. Fiz isso no finado Colégio GEO, onde passei 5 anos coordenando o Grupo de Teatro Geo, que criei, produzi e dirigi.

Me lembro, que Valevski(hoje um dos donos do NEO), na época sócio de Eduardo Belo no GEO, não era muito favorável a teatro dentro da escola, pois tinha aquela imagem que de um teatro feito por adolescente é algo inconseqüente e cheio de besteiras.

Eu sabia disso. Por isso, escrevi uma sátira à História do Brasil, BRASIL À VISTA, exigindo um teatro de verdade, o Teatro Barreto Junior. A maioria dos professores não escondia suas opiniões quanto à capacidade do Grupo de Teatro GEO de fazer algo que prestasse, a não ser aquelas porcarias de teatro de estudantes... E deu no que deu, todo mundo indo elogiar o grupo depois do espetáculo, inclusive o próprio Valevksi dizendo que estava enganado sobre a gente.

Me lembro algo parecido, quando montou , com o Tucap, PROMETEU ACORRENTADO, de Ésquilo, na Igreja Rosário dos Pretos. Depois do espetáculo, an passant, testemunhei uma dondoca confessar para outra:"até que estes estudantes fazem um teatro direitinho...".

Eu não tenho o preparo intelectual e nem a experiência de , mas estou sempre preocupado em fazer teatro, se bem gosto mais de teatro de comédias.

Arrisquei, naquela reunião, a um comentário: A maioria dos grupos pernambucanos assusta o provável público com encenações cansativas, chatas e herméticas. Eu acho que o caminho seria montar algo parecido com um Teatro Pernambucano de Comédias (como o TBC fez no sul), encenando espetáculos que formem platéias.

Para finalizar, um comentário sobre o nosso ex-amigo e ex-colega Cristiano Lins, que insiste em nos considerar seus amigos. Ele mandou novamente um material de denuncia a varios produtores culturais, e, aproveitou o email para mais uma vez me espinafrar. Ele gosta disso. Mas não tem nenhuma pessoaem Recife que aceite fazer um trabalho sem o cash antecipado. Eu fazia trabalhos de programação visual para as peças dele, mas não posso provar que ele ficou me devendo. Apenas nunca entregarei minha cadela para ele levar pra passear. Não é uma pessoa confiável. Agora, em vez de ficar batendo nos seus ex-amigos e ex-colegas, devia cuidar da vida dele. É um fim de carreira lamentável para quem foi tão importante como produtor em Recife.