sábado, agosto 26, 2006

Recitata 2006: a poesia de mercado

Como sempre, chego pontualmente à lá britanica, antes da hora. Reencontro uma antiga colega da Fundação de Cultura, Xislaine.

Outro que nunca mais vi, Juareiz Korreya (fazemos as contas: 33 anos, ele não acredita, mas eu provo). Revejo o amigo de infancia Hélcio Clemente, que não tem nada de clemente...

Digo a Allan Salles que vai ganhar. E ganha!

Tou fora, como estava previsto, tendo em vista o resultado do concurso da semana passada, comentendo as injustiças de sempre em quaisquer festival que se preze, só que desta vez, hoje, o privilégio foi exclusivo da poesia popular. Ficou de fora a poesia contemporânea, as experimentações etc.

Alguns candidatos fizeram verdadeiras interpretações teatrais, que não deu certo, o contrário dos performáticos da poesia popular, fórmula de sucesso.

Um amigo em comum me diz por que muita gente não gosta de Jessier Quirino, considerado um usurpador de poesias populares de terceira. Na verdade, usando o marketing, ele faz uma repescagem das melhores poesias populares, coloca uns detales e... sucesso. Como se eu, por exemplo, criasse um personagem chamado de SiTonho, e interpretasse poesias populares, ditosas, xistosas e histriônicas, puxando pelo sotaque e pimba! Um espetáculo!

Como tentei fazer, recitando os meus poemas Remi-Essencias e Rua Nova, que faz parte de um grupo de poesias sobre o Recife. Os originais foram logos reclamados por Juareiz, que repassei imediatamente.

Allan Salles vem me parabenizar e me compara a Ascenso Ferreira. Ele é muito generoso.

Mas brincando com Juarreiz Korreya, Marylucy Maciel e outro amigo que não via há muito tempo, Glauco Guimarães, ouso escrever poemas-minutos, ou poemas-piadas no dizer de Juareiz:

Comentando com Juarez que nos conhecemos há década, escrevo:
Ao contar
há quanto tempo
conheço certos amigos
Em vez de anos
eu conto em décadas


E ainda sai um chiste, inventado por Glauco: a companha juarássica de Juarez Korreya!

Ou então, comentando uma afirmação ouvida "an passant" de Maryluct, reivento, sendo até um pouco indelicada com ela:

A amiga poeta
encerrou uma discussão
dizendo:
"mato a cobra
e mostro o pau".
Mas sendo eu
um poeta safado
arremato logo:
A poeta
sendo mulher
"mata a cobra
e mostra o que?
mostra o...

Gargalhadas gerais!

O poeta Glauco Guimarães me passa dois poemetos, geniais, que fico incentivando para ele recitar, até fazendo uma direção teatral:

No bolso:
nada!
Nem grana
e nem
granada!

ou

Oratura

Na África:
Oxalá!
No Japão:
Buda!
No Iran:
Allah!
No Brasil:
Deus nos acuda!

No livreto que Juarez faz questão de me dar presente, pois eu quero comprar, como comprei o livreto de Fernando Chile, retiro uns poemetos, desobecendo a advertência de copyright:

Poema Imbecil

então os soldados
fardados/armados
e os (secretos) agentes
da polícia federal
no pastoril infantil
prenderam
as luminosas meninas
do cordão encarnado

Lembra muito a minha maneira de escreve, como (poesia minha):

O pisca-pisca
do anúncio luminoso
Fisga-fisga
incautos consumidores

Mais Juareiz:

danado
é que eu me tranquei
aqui dentro
e o mundo me espera
lá fora

Mais:

a minha dor
continua em cartaz
todos os dias
com apresentações ininterruptas
inclusive
nos domingos e feriados

Citando Fernando Chile:

o bom senso
aconselha
ter no mínimo
dois sonhos
no gatilho
logo pela manhã

e:

aluga-se
um coração
sem suites

No mínimo, um saldo positivo: reencontar velhos amigos e colegas de luta. O exercício da poesia oral que é muito difícil e a constatação, fácil, da velha incompetência do estado para fazer eventos culturais. Tou falando falácias?

O local, Mercado da Boa Vista, poderia ser um grande point cultural, pelo seu visual intimista, aconchegante, mas isso tudo não se coaduna com modernidas, como automóveis no recinto. Incrível como a produção do evento não impediu o acesso dos automóveis no páteo do Mercado, atrapalhando a circulação das pessoas.

O formato do Recital, alguns equívocos, por conta talvez da pioneiridade: as performances atrapalham ou valorizam um texto bom/ruim. A presença da poesia popular em cidadãos citadinos, muito bem observado por Juareiz.

A proposta:
Separar poesia popular, da contemporânea (será?) e das performances e dar um prêmio exclusivo para interpretações, como a injustiça da semana passada com a fantástica performance do Cláudio Vasconcelos, tão leve e sutil, e dos refrões de Felipe Mendes (prá lá e prá cá).

A idéia de fazer uma programação mensal, num local mais povoado como o Largo do Carmo, onde passam tantas pessoas, que seriam atraidas pelo evento.

E uma premiação tipo: Os dez melhores, com prêmios iguais.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial